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22/07/2008 00:46
Lago
Eu pego e arremesso com força
a pedra no meio do lago.
A matemática diz
que as ondas respondem nas margens.
Eu pego meu ego e arremesso
com força nas águas da vida.
Alguma coisa me diz
que eu devia ser artista.
Um pulo arremessa com força
meu corpo nas águas do lago.
Atire-me a primeira pedra
aquele que sabe as respostas.
enviada por vinicius
18/07/2008 03:44
A dose certa
Quero amar apenas o suficiente.
Cansei de ficar doente,
febril, demente, em pavor.
Quero amar na chave no equilíbrio:
nem peixe, nem pássaro: anfíbio:
sem vôo ou mergulho: sem dor.
Quero felicidade sem desespero,
um amor para nós cavalheiro,
na medida do essencial.
E o que não usarmos de amor, a gente guarda,
num pote, como se fosse mostarda,
pra quando ficarmos sem sal.
Melhor ter reserva de tempero
que ser temperamental.
enviada por vinicius
01/09/2007 00:36
O plano corporal
As saliências das palmas de minhas mãos
foram pensadas para apalpar teus contornos.
Minha capacidade gustativa fez-se eficaz
para sentir-te plena em cada avanço de meus lábios.
Minha inteligência despejou-se por completo
na tentativa de prever teu comportamento.
Meu discernimento só tem função
porque é capaz de isolar-te do caos sensório.
O fluido vital que emano procura exclusivamente
antenas de teu campo vibratório.
E o melhor é que não és Deus,
nem ideal, nem objetivo de vida,
nem algo que eu superestime.
O melhor é que posso enviar-te esta prece
no exato momento em que toco teu corpo.
enviada por vinicius
18/08/2007 23:48
Melhores momentos
Se efêmeros desencantos não quebram a sobriedade;
se fúteis preocupações não param passos decididos;
se a culpa já redimida não torna a voz pusilânime;
se a auto-imagem recusa recantos e esconderijos;
se declarações confusas são deixadas de escanteio;
se intenções não declaradas valem tanto quanto nada;
se não há medo no brilho dos olhos avermelhados;
se é possível ter rumo e sestro no breu da estrada;
que me resta que não seja,
com o ensejo do momento,
e a licença da modéstia,
constatar que estou sobrando?
enviada por vinicius
05/01/2007 14:27
Fundo
O fundo do meu coração não é tão fundo.
Por qualquer coisa eu desbundo,
qualquer revés, fico bruto.
E o tampo do meu coração fizeram frouxo.
Destampa ao mínimo arrocho,
desobedece a função.
Por isso ficou tão fácil mexer em tudo,
tirar qualquer conteúdo
do fundo do meu coração.
Por isso compenso a falta dessa fundura
cobrindo-me de uma armadura
que chamo de solidão.
enviada por vinicius
23/12/2006 15:52
O depois
Divago sobre o vago que fica
decantação depois de perfeita química
Como se eu me tornasse um livro
e você me rasgasse sem ler
Divago sobre o vago que fica
decantação depois de perfeita química
Como se eu me tornasse uma música
e você me assoviasse em menosprezo
Divago sobre o vago que fica
decantação depois de perfeita química
Como se eu me tornasse um quadro
e você me retirasse da mostra
Divago sobre o vago que fica
decantação depois de perfeita química
Como se eu me tornasse um bicho
e você me nutrisse com lixo
Divago sobre o vago que fica
decantação depois de perfeita química
Como se eu me tornasse a Lua
e você fizesse a previsão do tempo
Divago sobre o vago que fica
decantação depois de perfeita química
Como seu me tornasse virtual
E você me deletasse num clique
Divago sobre o vago que fica
decantação depois de perfeita química
Como se eu finalmente fosse homem
E você me deflorasse nessa hora
enviada por vinicius
23/12/2006 12:26
Quem bate à sua porta
Quem bate à sua porta
Na noite de Natal
Trajado de miséria
Tachado marginal
Não veio por migalhas
Do pão de sua ceia
Não vai tomar assento
Na festa que o rodeia
Quem bate à sua porta
Na noite do velhinho
Só quer dar parabéns
Por todo seu carinho
Por sua diligência
Em ofertar aos seus
Fartura e providência
Razões de crer em Deus
Só veio dar por certo
Que, sim, também queria
Alguém que o protegesse
Da fome neste dia
Alguém que o acolhesse
Que o ensinasse a fé
Tal como fez você
Com filhos e mulher
Só veio ver de perto
O amor que desconhece
E oferecer a todos
Seu riso como prece
Quem bate à sua porta
Não entra, nem insiste
Só quer ter a certeza
De que o Natal existe
enviada por vinicius
23/11/2006 01:34
Familiaridade
Você não gosta
do meu sorriso segurado,
econômico, inconcluso,
de quem se deu bem na vida.
Aquela grotesca gargalhada,
livre como um trem que descarrilha,
aquela, sim, sonora, solta,
seria velha conhecida.
enviada por vinicius
04/11/2006 00:53
Memorável
A coisa mais bonita que já fiz,
a mais extraordinária e estupenda,
a mais nobre atitude, a mais feliz,
a ação que me transformaria em lenda,
só vimos dois: um, eu, o outro, alguém
que os louros silencia, como abade,
dizendo: "se és capaz de tanto bem
não necessitas de publicidade!"
enviada por vinicius
14/10/2006 01:16
Lugar na existência
Quando eu levo o riso às faces leves dos meus filhos
E levo-lhes à boca o de-comer
e quando eles tateiam meu olhar, tenho a impressão
que para alguém sou mais do que mais um
que passaria em vão com a multidão.
Quando alguém se encanta com palavras que declamo
nessas horas soltas do pensar
e isso lhe desperta interiormente outra visão,
me vejo como mais do que mais um
que passaria em vão com a multidão.
Quando testemunho minha vida numa roda
e amigos me acompanham com prazer,
sei que, para eles, nesse estado de atenção,
eu me torno mais do que mais um
que passaria em vão com a multidão.
Quando estamos juntos e os momentos e as idéias
ficam atrasando o amanhã,
e você me escolhe outra vez no coração,
no fundo me tornei mais que mais um
que passaria em vão na multidão.
enviada por vinicius
15/09/2006 14:52
As grandes mudanças
Enquanto a alma laborava
compenetrada e decidida,
pessoas, fatos e outras sortes
reconstruíram minha vida.
Amores foram para longe;
amigos, para algo melhor.
Aqui fiquei, ameno e mudo,
forjando um mundo ao meu redor.
E enquanto todas as mudanças
rendem tributo à nova lei,
eu vivo aquilo que me é dado
honrando o mundo que forjei.
enviada por vinicius
08/06/2005 14:29
O impossível acontece
Quando algo parecer-nos impossível,
muito além das mais intensas diligências,
Lembremo-nos de existirem Severinos,
que, incapazes, chegam até a presidências.
Quando algo parecer fora do alcance,
não se deixe derrotar, morrer na praia.
Com influência e grana, o incrível ganha chance.
Pode-se até inocentar um Sérgio Naya.
enviada por vinicius
07/06/2005 11:52
Vamos a Brasília
Um passarinho me contou bem segredado
que andou voando a CPI do Banestado
e viu que era perigoso até de olhar.
Um deputado me falou que era egresso
lá de Brasília, e que há sereias no Congresso
que é impossível ser honesto ao escutar.
Aqui, de resto, eu só recebo novidades
pelo funil da imprensa de futilidades,
pelo viés do denuncismo e estardalhaço,
e como todo brasileiro, estupefato,
vejo nenhuma ação concreta, e muito fato,
e os mesmos pulhas me fazendo de palhaço.
Sinto que é hora, então, de discutir direito
o que acontece nesses fóruns, e o que é feito
desse contrato entre nós e os que nos esfolam.
Sinto que é hora de cobrar comportamentos
que justifiquem o tamanho dos proventos
desses que esnobam a força oculta dos que enrolam.
Quero mudar, envio e-mail, saio às praças,
digo o que o que penso e desrespeito as ameaças,
me manifesto na melhor das intenções,
porque acredito no desmonte das falácias,
porque acredito no poder que vem das massas,
que não são massas, são irmãos, em multidões.
enviada por vinicius
06/06/2005 13:04
Canto de boas-vindas
Quem precisa de um sinal
pra entender o bem e o mal,
queda igual ao meu pensar.
Me conservo pessoal.
Ouço muito e escuto mal,
agradeço e deixo estar.
Pastoreia o que dá pé,
santo papa bento Zé,
glória a Deus que te pôs lá.
Dor da vida, andor da fé,
santo papa, santa sé,
meu dilema, vosso lar.
enviada por vinicius
18/05/2005 12:10
Arre medo
Em meio a ordinários entraves,
Figura, em prefácio a meu sono,
Um medo de um medo mais grave,
Sem fuga, remédio ou retorno.
Não quero furtar-me a esse medo.
Instauro o futuro vindouro.
Pretendo explicar seu segredo
E manipular seu tesouro.
enviada por vinicius
24/03/2005 11:07
Escolha
As minhas melhores idéias,
porque não rimam,
porque não sei escrevê-las,
porque desagradam pessoas,
ficam para algum dia.
Só o que não se pode adiar
merece chamar-se poesia.
enviada por vinicius
13/03/2005 00:43
Valeu
Pela primeira vez não vou escrever um poema neste blog. Hoje é 13 de março de 2005, estou realizado. Foram 365 dias ininterruptos de poesia. Nenhum dia ficou sem seu poema. Atingi, portanto, meu objetivo, e cumpri o desafio.
Continuarei escrevendo poemas aqui, mas agora esporadicamente, com mais vagar e menos pressão.
Reservei para este último dia "Idéia", sem sombra de dúvida meu melhor poema, como um presente para aqueles que sempre me acompanharam.
Vou agradecer a todos os que estiveram por aqui, pessoalmente, por e-mail, e através de um registro que farei num próximo post.
Agora, me dedicarei à quase impossível tarefa de selecionar 65 dos menos piores deste blog para compor um livro. Aceito sugestões, e ainda posso mudar alguns deles, criando versões alternativas... quem sabe? Mas em novos posts: pois o que consegui fazer em um ano pretendo deixar do jeito que está, para contemplar minha romântica estética da autenticidade, à qual o formato blog tão bem se presta.
Amo vocês. Estouremos a champanha. Vitória.
Mas ainda tem mais...
enviada por vinicius
13/03/2005 00:30
Idéia
Declínio,
o tempo é curvo.
Desejo
parar o tempo.
Destarte,
parei o mundo.
Deserto
de movimento.
Detalhe:
não há retorno!
Derrota
da minha idéia.
De fato,
não tem mais jeito.
Dejetos,
o mundo é vosso!
Devoto
de um tempo reto,
(delírio!)
parei o mundo.
Desculpe.
Devolvo as luzes.
Degelo,
degelo seco.
Declínio,
o cosmo é curvo.
Delírio
parar o tempo.
Desejo
um tempo novo.
DEVIR.
enviada por vinicius
12/03/2005 00:15
Vou sentir falta
Vou sentir falta da pressão
do preenchimento da promessa.
Disciplinar-se pra pensar
faz bem à beça.
É bem o tipo de contrato
que a gente aceita no apesar,
porque acredita que a cabeça
vai mudar.
Vou sentir falta da exigência
de iluminar a mente escura,
de dar contorno mais humano
à criatura.
Vou sentir falta das palavras
compadecidas de vocês,
porque poeta é quem percebe,
não quem fez.
enviada por vinicius
11/03/2005 23:50
Presunção
A presunção.
Não se nega.
Vai-se adiante,
às cegas.
Porque é constitutivo desse que quer aparecer.
Permanecer.
Amanhecer.
Os amigos tem de ficar e elogiar mais um pouco.
O sol tem de oferecer luz à intenção de clima.
O mundo existe para que alguns brilhem em cima.
A presunção de ser esse um brilhante.
Um ser nesse subconjunto dos alguns.
Uma luz que absorve a luz de olhares vacilantes.
Mérito para atenção.
Competição meritória.
Vitória.
Pulsão.
Sem Freud, sem culpa, sem essa, sem dó.
Presunção, e só.
Pressa, desbunde e tesão
em meio ao pó.
enviada por vinicius
10/03/2005 23:49
Violão calado
Um violão em silêncio,
deitado no fundo do armário,
trancado num case sem chave,
e envolto em teias de aranha,
que permaneça escondido.
Houve tempos de ilusão,
de apaixonar-se, e viver,
e ele restou, testemunha.
enviada por vinicius
09/03/2005 22:17
Quando visitarmos Bruno
Amigo Bruno, não me conte
das praias de Portugal.
Um dia verei por mim mesmo,
acho isso mais legal.
Um dia estarei na sua terra,
curtindo à beça, numa boa,
as vistas mais lindas da Europa
e o Sol que amorena Lisboa.
enviada por vinicius
08/03/2005 23:23
Imperfeição
Dispenso teu cheiro de talco,
teu senso de conveniência,
teu sim dependente do álcool,
teu jeito de amar sem presença.
Dispenso teu auto-domínio,
teu corpo sem defeito algum.
Dispenso teu mundo tão fino.
Dispenso teu lado in: comum.
enviada por vinicius
07/03/2005 22:52
Perfeição
Prefiro teu cheiro real,
teus erros de quem não pensou,
teus sonhos de colegial,
teu modo imaturo de amor.
Prefiro teu urro explosivo,
teu corpo sem retoque algum.
Prefiro teu mundo impreciso.
Prefiro teu lado incomum.
enviada por vinicius
06/03/2005 22:52
Notícias de longe
Mamãe põe em dia as notícias
da família que às vezes tenho.
O primo que curtia uma preguiça
agora trabalha com empenho.
O filho da sobrinha chata
está perto de nascer.
A vó da nora ingrata
até lembrou de você.
O tio do interior
tirou sorte grande, e a empresa
promoveu-o a diretor.
E mesmo com toda a tristeza
pela mulher que partiu,
admiro a fortaleza
do outro tio,
que não entregou o apito,
e segurou seus três rebentos
no grito.
O que magoou meus sentimentos
foi a atitude da sua ex,
que espalhou aos quatro ventos
coisas que você não fez.
Pior que ela se deu bem:
arranjou-se com um ricaço
e fez logo um neném
de laço.
Mamãe quer me por em alerta,
mostrando por a mais b
que vida não é tão certa
quanto eu julgaria ser.
E enumerando em estórias,
os vultos que redescubro,
compara as tragédias e glórias
de um acaso que não julgo.
Não julgo porque não cabe.
A vida se impõe e acontece,
até para quem não sabe,
até para quem não merece.
enviada por vinicius
05/03/2005 13:23
Cálculo renal
Não acho que Deus nos castigue,
não O acredito ruim,
mas creio que se Ele assim fosse,
teria para esse fim,
a arma mais poderosa,
a mais terrível, pra mim:
poria em cada malvado
algumas pedrinhas no rim.
Sofrendo demais, de joelhos,
os maus pediriam perdão
por tudo o que já fizeram,
que fazem, e ainda farão.
A dor mais intensa que existe
só perde pra desilusão
(mas essa esses maus já não sentem;
de pedra é o seu coração).
enviada por vinicius
04/03/2005 10:55
A obra que extrapola
Simetria de abajures.
Travesseiros lado a lado.
Mesmo a vista mais aguda
não vê rugas no lençol.
Entre os quadros da parede,
precisão, paralelismo.
No tapete, ângulo reto.
Cada móvel bem imóvel.
Mas me movo, erro, esbarro,
tiro a ordem onde a quis.
Eu, tão tosco para o quarto,
não pertenço ao que criei.
Dormirei bem confortável
no sofá, que é minha cara.
enviada por vinicius
03/03/2005 10:44
Palavras de um verme miserável
Um verme miserável me dizia:
"o mundo não tem ética ou caminho.
Construa sua própria autonomia,
e saiba que estará sempre sozinho."
Palavras desse verme miserável
não deveriam ser o que me guia
no trote livremente interpretável
do andar da carruagem da poesia.
Não vou justificar minha lembrança.
Lembrei da fala pela criatura,
que em mim a fala finca essa esperança
de os vermes terem rasgos de ternura.
enviada por vinicius
02/03/2005 10:02
Capa
Escondo-me do frio e do calor,
do auto-encolhimento e da soberba,
de extremos de coragem e pavor,
na insossa polidez destas certezas.
O amor que não senti não me corrompe,
a fé que abandonei não acrescenta.
Até já quis galgar outro horizonte,
mas hoje almejo a capa: na placenta.
enviada por vinicius
01/03/2005 23:19
A fé consola no caos
Sei do que podem fazer motivados, livres.
Sei também que esse poder tem de estar no limbo,
porque é no limbo que as almas ganham seu molde
básico e tosco, mas mestre, insolúvel, próprio.
Sei que do desinteresse, do tédio vago
farpas se soltam e atingem os nervos-sonhos.
Esses meninos, tão pedras sem leite, e nulos,
tem de ter algo na manga como cartada.
E ainda que quem dá as cartas não lhes dê jogo,
banco esse blefe, que entendo por educação.
Todas as fichas aposto no nada. Truco.
enviada por vinicius
28/02/2005 01:48
O monstro na janela
Nem sequer abrira os olhos
e já, num reflexo condicionado,
escancarava a janela ao sol da manhã,
quando percebi uma boca enorme
de dentes pontiagudos e capaz de me engolir.
Era um monstro pré-histórico,
sorrateiramente postado
numa armadilha para me devorar.
O medo que tive me deu três minutos
de paralisia e reflexão.
São os três que, normalmente, prenunciam
a absorção da mente pela vigília.
Foi tempo de curtir associações livres
e fazer relações até então absurdas.
Foi o tempo de criar fantasias
com o tecido da vida.
Um saborzinho disso ficou na memória
quando o medo acabou.
E quando o medo acabou, voltou o desespero,
e o desespero encontrou respaldo
num acontecimento inusitado e drástico,
feito como que sob medida.
Depois do desespero, veio o ímpeto,
e saltei dentro da boca do dinossauro
antes que tudo voltasse ao que era antes.
enviada por vinicius
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